A mentira
A partir de que idade a
criança começa a mentir?
Uma das maiores especialistas sobre a
capacidade de crianças para mentir é a doutora Victoria Talwar, da Universidade
McGill, em Montreal. Seu laboratório não é um laboratório comum. Situado num
casarão de frente à universidade, ele mais parece uma brinquedoteca. Mas os
experimentos feitos lá não têm nada a ver com diversão.
Não questiona se crianças mentem - afinal, todas
têm capacidade de mentir, a não ser que tenham algum déficit de
desenvolvimento. O que ela quer é identificar quando os pequenos começam a
mentir, como o fazem, quanto sucesso têm em dobrar os adultos e o que tudo isso
tem a ver com os valores morais que elas aprendem.
Usa os brinquedos como armadilha. Vejamos como
funciona o método mais clássico para avaliar as lorotas de crianças. Um adulto
diz a elas que dentro de uma caixa há um brinquedo. Então, ele diz que precisa
sair e pede para não mexer nele enquanto estiver sozinha. Como é naturalmente
curiosa, dificilmente a criança consegue resistir à tentação - 90% delas acabam
bisbilhotando o que há na caixa. Quando o adulto volta, pergunta se ela o
obedeceu. Então, a criança tem uma escolha: mentir ou contar a verdade.
Descobriu-se que as crianças começam a
mentir por volta dos 2 anos, quando 20% delas mentiram no teste. Aos 3 anos,
são 40%. Aos 4, 80%. Mais tarde, são todas. E as de 6 anos, uma a cada hora -
em geral mentiram para esconder alguma coisa que não deveriam ter feito.
Tudo isso significa que crianças são
terríveis seres amorais? Não. Elas aprendem, sim, que mentir "é
feio". Só que isso muda conforme a idade. Quanto mais novas forem, mais
elas dividem o mundo entre bem e mal e acham que qualquer tipo de mentira é má.
Aos 5 anos, 92% das crianças acham que
toda mentira é má, por mais que elas próprias mintam. Só que elas não conseguem
nem sequer definir direito o que é uma mentira. Se você perguntar por que
mentir é ruim, metade dirá que é ruim porque quem mente é castigado. Ou seja,
crianças de 5 anos mentem e acham isso feio, mas ainda não sabem definir o que
é mentira e a julgam de acordo com as consequências.
Mas isso vai mudando conforme elas crescem, até
saberem o que são mentirinhas de nada e mentiras para valer. Isso porque passam
a entender as implicações além do castigo.
Aprimorando a arte
Não basta mentir. É necessário convencer. E,
nesse ponto, crianças só começam a melhorar sua habilidade dos 7 em diante,
quando, diante de perguntas de adultos, são capazes de sustentar a lorota sem
cair em contradição, planejando uma estratégia que convença o enganado. Essa
sofisticação de suas mentiras evolui sem parar até se tornarem adolescentes,
tão dissimulados quanto um adulto.
Crianças entre 6 e 7 anos não conseguem sustentar por muito
tempo a mentira e caem em contradição após um tempo ser interrogado pela mesma
questão, entre 9 e 11 anos já conseguem
respostas plausíveis e desculpas que convencem, na melhoria do talento para mentir existe uma
nova relação: aquela entre a capacidade de sustentar a mentira e as funções
executivas da mente. Ou seja, habilidades como planejamento, memória de curto
prazo, controle inibitório e estratégia. A conclusão foi de que a mentira na
infância não era uma falha moral, mas sinal de que a criança atingiu um novo
patamar cognitivo. Mentir bem não é nada mais que saber pensar.
Devemos saber que
crianças de até cinco anos de idade não conseguem separar a fantasia do real. A
imaginação faz parte do desenvolvimento normal da criança e é base para o
pensamento lógico que o adulto tem. Mas com o passar dos anos, a fantasia dá
lugar à noção de realidade, sem desaparecer totalmente.
Veja o vídeo:
Dia da mentira: Psicóloga Cláudia Teixeira - entrevistada pelo SBT, dia 01 de abril de 2015.
Parte 1
Parte 2
Como o ambiente
familiar pode influenciar as crianças a achar que mentiras são comuns?
Os pais,
obviamente, tentam ensinar bons hábitos aos filhos, educá-los da melhor forma possível,
porém, os filhos podem presenciar situações em que a mentira está presente em
seu dia a dia. Assim, quando os pais mandam dizer que não estão em casa para
não falar ao telefone, dizem que gostam de uma pessoa, mas falam mal pelas
costas, ou emitem comentários contraditórios estão dando exemplos de mentiras.
A criança pode não entender porque os pais dizem que é errado mentir quando o
fazem de forma rotineira. Ou seja, a criança pode aprender a mentir por
imitação, afinal a mensagem vivida é que ela é um comportamento aceitável.
Quais são as
razões para se continuar mentindo na vida adulta?
Uma das
razões interiores mais comuns para se continuar a mentir na vida adulta é a insegurança
ou baixa autoestima, a mentira passa ao outro uma imagem de nós próprios muito
melhor do que de fato acreditamos ser desde a infância. Os adultos mentem
também por razões externas, de acordo com as pressões para sucesso na
vida em sociedade. Mentirosos contumazes, de dinâmica psíquica rica em
conflitos complexos, podem representar personagens tal como fazem os atores, e
refletem aquilo que gostariam de ser. Ao perderem o controle sobre o impulso de
mentir a personalidade toda é tomada por um falso e inaltêntico ego, caracterizando
distúrbios de personalidade.
Mitomania ou
mentira compulsiva
O que é a mitomania?
Mentir é o ato de intencionalmente e deliberadamente
fazer uma declaração falsa. A mitomania ou mentira compulsiva é uma tendência
patológica pela mentira. A maioria das pessoas fazem isso por medo, mas a
mentira compulsiva interfere no julgamento racional, no relacionamento familiar
e especialmente social. Os termos mentiroso patológico, mitônomo e mentiroso
crônico são frequentemente usados para se referir a um mentiroso compulsivo.
Quais são as causas da mitomania?
A literatura aponta que não existe uma causa da
mitomania, mas um conjunto de fatores associados podem provocar o problema:
histórico de vida, relacionamentos, padrão de relação parental, genética e
experiências. Acredita-se que a baixa auto-estima, necessidade de apreço ou
atenção e a tentativa de se proteger de situações constrangedoras marquem o
início da mitomania.
Como a mentira compulsiva pode se desenvolver desde a
infância?
Na infância, devido a imaturidade mental, as crianças
podem mentir com alguma recorrência. Muitas crianças tem dificuldade de
enfrentar algumas frustrações e críticas e acabam mentindo para os pais na
tentativa de preservar sua auto imagem. Essa característica só assume um caráter
patológico quando a criança inclinada à mitomania constata que sua mentira pode
ser entendida como verdade sem nenhuma consequência negativa associada. Por
outro lado, um sentimento de prazer e de poder pode facilmente incitá-la a
repetir o mesmo comportamento. À medida que os colegas acreditam em suas
histórias e ela começa a se sentir aceita e interessante, o mitônomo passa a
contar cada vez histórias mais incríveis e a tornar disso um hábito com a
repetição do comportamento de mentir sem nenhuma finalidade específica. Esse
distúrbio pode ter origem na baixa auto estima da criança e na supervalorização
de suas crenças, com o não enfrentamento da angústia ou frustração associada a
uma situação.
Qual a diferença entre um o indivíduo que fala uma
mentira esporádica e o mentiroso compulsivo?
Um mentiroso compulsivo é definido como alguém que mente
como um hábito, desde a infância. Mentir, neste caso, é a sua forma normal de
responder à qualquer pergunta, por mais simples que seja. Algumas vezes são
pequenas mentiras, outras são muito elaboradas, cheias de detalhes, que induzem
a própria pessoa a acreditar nelas. Mentirosos compulsivos podem esconder a
verdade sobre tudo, quer seja algo grande ou pequeno. Por outro lado, para um
mentiroso compulsivo, dizer a verdade pode chegar a ser muito estranho e
desconfortável.
Qual é a diferença entre um sociopata e um mentiroso
compulsivo?
Um sociopata é normalmente definido como alguém que mente
incessantemente para obter uma vantagem a sua maneira, ele faz isso com pouca
preocupação com os outros. Um sociopata é muitas vezes orientado por um
objetivo, ou seja, a mentira é focada para obter um ganho ou vantagem.
Sociopatas têm pouca ou nenhuma consideração ou respeito pelos direitos e
sentimentos dos outros. Eles podem ser encantadores e carismáticos, mas usam
suas habilidades e talentos sociais de forma manipuladora e egocêntrica. A
maior parte dos mentirosos compulsivos não são necessariamente manipuladores,
eles sofrem com seu hábito de mentir, tendo as relações sociais sempre sob
risco de serem quebradas.
O mitômano possui consciência de que está mentindo?
O mitômano sempre sabe, no fundo, o que ele diz não é
totalmente verdadeiro, embora não possuam consciência plena da intenção de cada
mentira. Por isso, acabam por iludir os outros em histórias de fins
mirabolantes, com o intuito de suprirem aquilo que falta em suas vidas. A
tendência a mentira parece ser perseverante, não é provocada pela situação
imediata ou pressão social, mas representa uma característica inata da personalidade.
As histórias contadas tendem a apresentar o mentiroso sempre favoravelmente.
Por exemplo, a pessoa pode ser apresentada como sendo fantasticamente corajosa
ou estar relacionado com muitas pessoas famosas.
Como é feito o diagnóstico?
Com o tempo, é natural as pessoas que rodeiam um mitômano
perceberem a mentira. Porém, mais importante do que identificar a ação repetida
de mentir, é reconhecer este ato como um hábito patológico. Mentira excessiva é
um sintoma comum de diversas doenças mentais. Por exemplo, pessoas que sofrem
de transtorno de personalidade anti-social usualmente mentem para se beneficiar
os outros. Alguns indivíduos com transtorno de personalidade borderline podem
mentir para chamar a atenção, alegando que eles foram mal tratados ou
pressionados. A mentira patológica, pode ser descrita como um vício em mentir.
É quando o indivíduo mente sem nenhum ganho pessoal. As mentiras são geralmente
brancas e muitas vezes parecem sem sentido. O diagnóstico da mitomania pode ser
feito pelo médico psiquiatra ou psicoterapeuta após uma avaliação.
A mitomania tem cura?
Os mitômanos vêem que estão sofrendo de um mal e desejam
curar-se, mas raramente procuram ajuda por vontade própria. A compreensão dos
companheiros ou familiares é muito importante. Se houver punição o tratamento é
dificultado. É preciso fazer uma reinserção social da melhor maneira possível,
trazendo o indivíduo positivamente à realidade.
Como é o tratamento?
O mais importante que o indivíduo consiga reconhecer os
prejuízos que seu comportamento pode trazer para si e para terceiros e que
queira mudá-lo. O tratamento geralmente envolve acompanhamento psicológico e,
no caso de pessoas que também apresentem outros quadros psiquiátricos (como
depressão e ansiedade), tratamento medicamentoso pode ser recomendado.
Psicoterapia parece ser um dos poucos métodos para tratar uma pessoa que sofre
de mentira patológica pois ajuda o indivíduo a desenvolver novos repertórios,
reforçando relatos verdadeiros e ignorando relatos falsos. Neste contexto
trabalha-se a extinção deste hábito disfuncional através o foco na visão
distorcida de si mesmo. Algumas pesquisas indicam que certas pessoas podem ter
uma predisposição para mentir.
Quais os riscos para o mitômano que não busca tratamento?
Há muitas consequências de ser um mentiroso patológico.
Devido à falta de confiança, relacionamentos e amizades tendem a ser
destruídos. Se a doença continua a progredir, a mentira pode se tornar tão
grave que eventualmente pode causar problemas de ordem social, psicológica e
até legal. A pessoa geralmente é excluída do grupo que frequenta por vivenciar
situações sem saída, passar por situações embaraçosas e perder a confiança de
todos ao seu redor.
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